V.

Paulo Nisa

video

V., versão em écran único, vídeo digital, 3'49'' (compressão para MPEG-4)


V. é uma instalação vídeo pensada para o Voyeur Project View.

Procurando tirar partido das especificidades do espaço em que é exibida, a instalação consiste na convivência de duas projecções em paredes opostas.
Estas projecções relacionam-se entre si em termos de semelhança e de diferença, consistindo ambas, à partida, num plano fixo idêntico, captado no mesmo décor e repetindo-se ainda a posição de câmara e o enquadramento, editadas posteriormente em loop.

Numa das projecções, correspondente à parede esquerda, pode ver-se um cadeirão vazio, não decorrendo qualquer acção.

Na outra projecção, correspondente à parede direita, uma mulher entra em campo e circula pelo espaço até finalmente se sentar e recostar nesse cadeirão. Daí mantém um diálogo com alguém que se encontra em off, diálogo inaudível, uma vez que a instalação não tem qualquer som. Depois de algumas “falas”, um homem entra igualmente em campo e acaba por se ajoelhar diante dela. Os dois beijam-se, após o que se levantam e afastam, saindo de campo e deixando o cadeirão de novo vazio.
Deste modo, ambas as projecções coincidem ciclicamente uma com a outra, nos momentos em que nem a mulher nem o homem estão em campo na projecção da parede da direita, vendo-se em ambas apenas o cadeirão vazio. Ao recomeçar o loop e a acção a diferença entre as duas é mais uma vez evidenciada.

Esta diferença baseia-se num sentido de contradição fundamental. A convivência num mesmo espaço de duas representações incompatíveis do mesmo décor (o cadeirão vazio e o mesmo cadeirão como elemento de uma acção dinâmica) provoca uma tensão figurativa, ou pré-narrativa, que por sua vez promove uma reavaliação daquilo que é visível.
Em relação com a imagem do cadeirão vazio, que lhe é aparentemente contemporânea (pela semelhança de condições de captação e pela simultaneidade simétrica de exibição), a cena dos amantes parece perder o seu valor de evidência, puramente visual, para dar lugar a dúvidas relativas ao seu estatuto documental.

Assim, o espectador perguntará a si mesmo qual o valor narrativo de certeza de tal cena. Estará ele diante de uma rememoração ou de algo por acontecer, ultrapassando-se por via do flashback ou do flashforward o problema da simultaneidade incompatível? Ou tratar-se-á da apresentação de uma hipótese, ou ainda, no limite e relembrando um desenho dos anos oitenta de Enzo Cucchi (O Sonho da Montanha, título citado de memória), uma espécie de sonho do cadeirão vazio, um animismo prospectivo?

É esta instabilidade da natureza evidente da imagem que é dada a ver que V. procura encenar e, de certa forma, investigar, numa cumplicidade com o espectador que toma a própria geografia do espaço expositivo como plataforma comum de entendimento: as duas projecções, por ocorrerem em paredes opostas, não são perceptíveis em simultâneo, uma vez que o espectador necessita de se virar para encarar uma ou outra. Por este motivo, a sua simultaneidade é intuída, não propriamente percebida ou abarcada pelos sentidos (contemplada). A leitura de cada projecção implica o off temporário da outra, o que problematiza a simplicidade aparente do dispositivo e a relação linear imediata entre as imagens, que uma leitura em duração pode desmentir.
Finalmente, V., o título da instalação, é também o título do primeiro romance (1963) do escritor norte-americano Thomas Pynchon, paradoxalmente célebre pela forma como resguardou a sua vida pública, existindo muito poucas imagens ou dados biográficos seus. V. é, igualmente, a inicial de um nome que se desconhece. Em ambos os casos é sugerida uma relação entre o que é mostrado (uma parcela ou um sinal) e aquilo que é deliberadamente oculto. A ficção mínima que V. encena não tem qualquer moldura narrativa, sendo como que um fragmento exposto de uma história guardada, embora estruturado em três tempos (início, meio e fim), o que simultaneamente o coisifica e interroga enquanto objecto.


(unicamente para efeitos de publicação neste blog, um entre outros documentos de apoio à instalação vídeo, foi feita uma edição de V. em écran único, aqui apresentada como uma variação a partir dos mesmos materiais: as duas projecções são substituídas por duas pistas de vídeo na time line de edição e a relação no espaço entre ambas pela manipulação de efeitos de transparência, tratando-se, em termos gerais, de um trabalho de tradução / reinterpretação [técnicas])

(gravações [Setembro 2008]: Mini DV, câmara Panasonic NV-GS500, cadeirão, projector com ventoínha rotativa; intervenientes - Paulo Nisa e Vanessa Sousa Dias [agradecimentos]; pós-produção [Outubro 2008]: Final Cut Pro 5.1)